A Boa Notícia de um Vivente


Espero que seja útil...

Depois de anunciarem a Ressurreição de Jesus como a Boa Notícia de que Deus tinha tomado partido por ele e tinha penetrado o mistério mais profundo da sua morte para exaltar a sua vida e confirmar a sua missão, os primeiros Apóstolos começaram logo a perceber uma coisa muito bonita: "Uma Boa Notícia nunca vem só!"

O aprofundamento desta Boa Notícia fazia experimentar muitas outras... Era(m) esta(s) Notícia(s) que congregava(m) pessoas em Comunidade e animava(m) uma Caminhada de tipo Catecumenal, ou seja, progressiva compreensão e pertença ao mistério da Vida que se manifestara em Jesus.

Foi no seio de comunidades assim, reunidas à volta da Presença de Jesus Re-Suscitado pelo Pai, que surgiram os Evangelhos. Não são uma "apresentação" de Jesus nem uma "proposta de adesão" à Fé de ninguém... São textos de Fé que acontecem já em contextos de Caminhada Catecumenal. Por isso, utilizam linguagens que só com essa Caminhada e experiência de Fé se tornam claros... Além disso, têm umas quantas marcas culturais e bíblicas que, sem sermos introduzidos nelas, não deciframos.

A verdade é que, andando por aí, uma das coisas de que mais me dou conta é que toda a gente gostava de perceber melhor os textos dos Evangelhos... Todos temos muitas perguntas! E, quem não as tem, normalmente, é porque as substituiu por "certezas" ditas de maneira mais ou menos convicta...

Por isso, fizemos aqui na Comunidade onde vivo, um encontro sobre estas coisas... Preparei um caderninho para que toda a gente pudesse continuar a aprofundar em casa, e pareceu-me importante, por ser o tema que é, preparar também um blog com esses temas bem arrumadinhos. Espero que possa ser útil quer para reflexão pessoal, como para catequistas, outros evangelizadores ou grupos que procuram fazer caminhos de Fé.


Um grande abraço!

“Esse Jesus, crucificado, Deus Re-Suscitou-o,
levantou-o pelo Seu próprio Poder,
vivificou-o com o Sopro do Seu Espírito e assim constitui-o
Messias, porque confirmou a sua missão,
Senhor, porque exaltou a sua vida,
e Salvador, porque o Espírito Santo que lhe deu
foi derramado para nós, seus irmãos!”




Kerygma


Tudo começa aqui, nesta Notícia fortíssima que os primeiros apóstolos começaram a anunciar no coração de Jerusalém. Este é o anúncio fundamental, o núcleo, o centro vital e insubstituível da Fé a que se dá o nome Kerygma ("anúncio", no grego do Novo Testamento), a pedra angular de tudo o que se diga de Jesus como instrumento e acção de Deus no meio de nós.

O livro dos Actos dos Apóstolos é aquele que nos testemunha melhor esta explosão que acontece no íntimo dos Apóstolos reunidos depois de passarem pela experiência da morte do Mestre. Eles mesmos, renascidos por uma experiência qualquer que fizeram juntos, são a prova viva do que anunciam: “Nós somos testemunhas destas coisas!” (Act 2, 32)

Anunciavam a morte de Jesus como Páscoa [Passagem] para Deus que o acolhe como Pai e o gera como Filho na abundância do Espírito Filial com que o vivifica. O primeiro anúncio aponta para Deus, para uma acção de Deus, uma iniciativa de Deus que se tinha comprometido com Jesus e levou esse compromisso até às últimas consequências: perseguiu-o na sua morte, entrou no mistério profundo da sua debilidade, agarrou-o na sua mais radical impotência e justificou-o, pô-lo de pé, deu-lhe razão!

Ele que tinha sido injustamente julgado e morto, a quem tinham tratado como blasfemo e mentiroso, falso profeta e instrumento de Belzebu, foi justificado, inocentado, credibilizado por Deus mesmo!

Logo no princípio, os apóstolos perceberam que acontecia em Jesus o que já os profetas antigos do seu povo tinham experimentado e dito: aqueles que Deus suscita no seio do Seu povo são tratados injustamente. Os mais fiéis são também os mais maltratados… precisamente por causa da sua fidelidade que não se verga nem vende!

Mas Deus toma partido por estes… Estes que são o sinal mais visível do próprio agir de Deus na nossa história, de maneira não triunfalista nem poderosa à moda dos homens… Deus toma partido por eles e, saindo em socorro do seu servo injustamente sofredor, encontra-se com todo o seu corpo, ou seja, todo o seu povo, e a todos trata das feridas… Não só do seu servo fiel, mas também dos outros não tão fiéis, e até daqueles que lhes causaram injustamente maior sofrimento…

Porque o que está em causa não é apenas restabelecer a ordem da “justiça” à nossa moda, premiando os justos e castigando os injustos, mas o que está em causa é curar o Seu Povo e todos os Povos do pecado que gera a injustiça.

O profeta Isaías, na altura do fim do exílio na Babilónia (+/- 500 a.C.), leu assim a acção de Deus na História e testemunhou-a com a figura do Servo de Iahvéh (Deus), Servo Fiel e Sofredor… Encontram-se os “cantos do Servo” nos capítulos 42, 49, 50 e 52 do livro de Isaías.

Quando os apóstolos de Jesus precisaram de compreender a morte do Mestre que lhes tinha parecido um enorme fracasso messiânico, foi a esta tradição profética do seu Povo que deitaram mão. Por isso muitas expressões dos Cantos do Servo de Isaías foram associadas à morte de Jesus, para o associar a esta linguagem de Fé segundo a qual
Deus quando “entra na história” para cuidar e salvar um servo Seu, não vem apenas “para” ele mas, “através” dele, chega para todos.

A imagem de Deus que está por baixo deste anúncio é a de um Deus que não está ocupado em dividir os culpados e os inocentes das nossas violências, mas em curar-nos a todos delas.

Nas feridas dos injustiçados tornam-se manifestas as feridas profundas daqueles que o violentam! Nas chagas de um crucificado fica visível a doença profunda daqueles que o crucificam! TODOS precisam de ser tratados, cuidados, curados, SALVOS!!! E Deus sabe isso… A Salvação é para todos, porque Deus sabe isso… “Nas suas chagas fomos curados!” (1Pe 2, 24)





Catecumenado


Anunciar o Gesto Salvador que Deus exerceu em Jesus, o Crucificado, é anunciar um Gesto Salvador com alcance universal! Por isso, esta Boa Notícia merece ser sempre mais aprofundada… Celebrada, Agradecida, Anunciada, Testemunhada…

Quando este Kerygma era aceite e provocava adesão, esse caminho era depois feito em comunidade de discípulos. A lógica era a do Catecumenado, ou seja, Caminho de escuta, descoberta, pertença e conversão. A adesão ao Kerygma marcava o início apenas e abria as portas a um caminho de Catecumenado Comunitário em que a vida do catecúmeno, pouco a pouco, se ia tornando pertença deste Mistério do Cristo Jesus, o Vivente no Espírito com o Pai e com todos os seus Irmãos!
Em Comunidade, o Caminho fazia-se como experiência da Presença de Jesus, Vivo e Activo, como Mestre que não abandona os seus discípulos e não cessa de transmitir-lhes o Espírito como Paráclito, Defensor e Pedagogo.

O modo como a Fé se aprofundava nestes Caminhos Comunitários está-nos especialmente testemunhada pelas cartas do Apóstolo Paulo às comunidades que ele acompanhou. Ele é o rosto mais visível da “etapa seguinte” ao anúncio do Kerygma. Tendo-o sempre presente e anunciando-o, ele procura também aprofundar o mais possível as consequências da ressurreição de Jesus para os seus discípulos, para os judeus, para os pagãos, para toda a Humanidade e até o lugar deste mistério no próprio desígnio da Criação! Procura as consequências, as conclusões, “todos os lados” de Jesus como Messias de Deus, Senhor da História e Primogénito da Nova Criação.

Os primeiros, ao anunciarem a Boa Notícia da Ressurreição de Jesus, tinham percebido e anunciado logo que “Uma Boa Notícia nunca vem só!”. Paulo leva isso ainda mais longe… Não, uma Boa Notícia nunca vem só, e por isso havia que procurar dentro dela todas as Boas Notícias que conseguíssemos, Boas Notícias para todos os seres humanos, de todos os tempos, e para toda a Criação.





Evangelhos


E foi no contexto destas comunidades reunidas, no contexto de discípulos de Jesus que se tornavam tal por um Caminho Catecumenal que se sinalizava de maneira especial pelo Mergulho (Baptismo) no Senhor Jesus, que surgiram os textos que hoje conhecemos como “Evangelhos”.

Representam já uma “terceira etapa” no anúncio da Boa Notícia de Jesus Re-Suscitado pelo Pai e Vivente no Espírito. Foram surgindo para explicitar mais profundamente ainda a certeza de Fé que aquelas comunidades viviam:
“Ele está connosco!” São aprofundamento desta certeza…

Aqueles que eram admitidos a escutar os evangelhos já tinham aderido ao Kerygma do Senhor Re-Suscitado e tinham sido integrados num Caminho Catecumenal de aprofundamento do Mistério da Fé. Aqueles que eram admitidos a escutar os evangelhos…

Sim, esta expressão é mesmo assim, e é muito importante que seja assim! “Admitidos a…” Porque os evangelhos não eram para todos! Não podiam… Hoje estão à venda em qualquer livraria e toda a gente conhece passagens, historinhas, pedaços… Aqueles que costumam celebrar Eucaristia já estão fartinhos de os ouvir! Mal começa, normalmente, já sabem como é o final…
E tudo isto num contexto em que deixou de haver Anúncio Kerygmático e Pertença Catecumenal.

Por isso é que as linguagens utilizadas nos evangelhos criam tanta confusão! Porque andamos há séculos a seguir um método que, no fundo, consiste em “pôr a carroça à frente dos bois”. Os evangelhos surgem como momento de maturidade no seio de uma comunidade convocada por um Kerygma e construída sobre as bases de uma lógica Catecumenal. Não têm como objectivo fazer uma apresentação de Jesus ou contar o que ele fez e como o fez um dia na Palestina… Vão muito mais longe!
Proclamam permanentemente a Acção de Jesus Re-Suscitado!

Surgem na dinâmica de comunidades vivas em que a Presença de Jesus era uma certeza experimentada, celebrada e aprofundada na Fé, como anúncio do modo como Jesus está Presente e Actuante pelo Espírito junto dos seus
. Desde a primeira linha, os evangelhos anunciam Jesus Re-Suscitado. Não falam do passado, mas do presente da comunidade que se reúne à volta desse evangelho.

“Ele está connosco! Ele está no meio de nós, a realizar permanentemente a Vontade do Pai, está connosco a consagrar-nos pelo Espírito para a Esperança do Reino! Ele está connosco… mas, a fazer o quê? Como? A provocar-nos com que Palavra, para que missão? Como é que ele actua em nós e através de nós?” Simplificando, é a estas perguntas que os textos dos evangelhos dão respostas.

É sempre o Re-Suscitado que está a ser anunciado, seja nos relatos do nascimento, como dos milagres ou sinais miraculosos ou no modo como Jesus enfrentou a sua própria morte. De quem se fala é sempre de um Presente, de um Vivente, de um Senhor que acompanha os seus, de um Mestre que vive cada dia com os seus discípulos, daquele que vai à frente como Cabeça dos seus irmãos. É ele que nasce pela acção do Espírito Santo, é ele que cura, ensina, ressuscita os mortos, perdoa os pecados, vence a morte e aparece aos seus discípulos para os fortalecer e enviar como mensageiros da Nova Aliança a todos os povos.

Para anunciarem a Presença e a Acção de Jesus como Boa Notícia (Evangelho) recorreram à releitura na Fé da memória de Jesus e utilizaram as tradições orais que já corriam entre as comunidades: as parábolas, os ensinamentos, os gestos e os acontecimentos mais significativos. Mas
todas estas linguagens evangélicas, riquíssimas dentro de um contexto de amadurecimento catecumenal da Fé, tornam-se “enigmas” quando esse contexto não existe.

Por isso, além de recriar dinâmicas de amadurecimento catecumenal da Fé, torna-se também importante hoje explicar o que significam algumas das linguagens fundamentais nos evangelhos para anunciar a Boa Notícia de Jesus Re-Suscitado e as tantas Boas Notícias que daí nos chegam. Porque essas linguagens surgiram como “portas” para as comunidades se encontrarem com o seu Senhor, Presente e Activo no seu seio, mas o que acontece é que na maior parte dos casos, as pessoas encontram essas portas “fechadas” porque lhes falta a “chave de interpretação” para as abrir.

Ler estas linguagens à letra, sem interpretação, ou gera crendice ou gera confusão. Quer uma quer outra, são duas maneiras de ficar “à porta” do Mistério de Vida e da Boa Notícia que os evangelistas estão a anunciar.

Vamos conhecer melhor cinco linguagens fundamentais utilizadas nos evangelhos para anunciar Jesus, de maneira a podermos entrar, por elas, até à experiência profunda e libertadora de Jesus Connosco!

1 Os relatos da infância
2 Os milagres, curas e exorcismos
3 O objectivo das Parábolas
4 Jesus e a sua morte
5 As aparições pascais

1. Os relatos da Infância


Correspondem aos dois primeiros capítulos dos evangelhos de Mateus e Lucas. Utilizam um estilo literário muito conhecido na bíblia que é o “midrash”. Consiste em narrar o nascimento de alguém que foi muito marcante na história entre acontecimentos que tornariam esse nascimento impossível sem que houvesse uma intervenção pessoal de Deus.

Todos os nascimentos dos grandes instrumentos de Deus na história de Israel estão marcados por um factor comum: a Impossibilidade! São nascimentos “impossíveis”… O que quer isto dizer? São um Presente de Deus para o Seu Povo, são um Dom, é Deus mesmo quem os suscita para nós. O próprio nascimento do Povo de Deus, da descendência de Abraão e Sara, dois velhos com 100 anos, e ela estéril! Depois, Moisés, que nasce e sobrevive com voltas rocambolescas quando todos os menino estavam a ser mortos… Ou Samuel, filho de Ana, a estéril… Ou João, o Baptista, filho de Isabel, a velha e estéril também… E Jesus, filho de uma virgem!

A “virgindade” da Mãe de Jesus não é uma linguagem biológica para nos falar de Maria, mas uma Linguagem Teológica para nos falar de Jesus como Dom de Deus, compromisso de Deus connosco, Iniciativa de Deus para nós! Dizer que nasceu de uma Virgem significa dizer isto: É Deus mesmo quem no-lo dá! Este que nasceu entre nós era de Deus, todo, foi Deus quem o suscitou entre nós, quem o gerou para nós e o conduziu até nós sempre! Ele é todo de Deus! Não foi gerado pela carne nem pelo sangue, mas pelo Espírito de Deus. Nós não podíamos dar a nós mesmos um Homem assim, pleno do Espírito. Só Deus nos podia dar o Messias, só Deus nos podia dar um Salvador. Ele é de Deus… Presente de Deus para nós.

Só há consciência deste Dom Salvador de Deus realizado em Jesus depois da experiência da sua Ressurreição. E é a partir daí que vão escrever os relatos da infância, para anunciarem que ele é o Messias já preparado e gerado por Deus desde o princípio… Não apenas do seu princípio enquanto pessoa, mas já como projecto de realização da história que o precede…

Por isso é que estes evangelistas escrevem genealogias de Jesus, para o ligarem a uma história na qual Deus o vinha gerando e da qual seria o ponto de chegada e recomeço preparado por Deus. Mateus, como é judeu e escreve para judeus, anda para trás na genealogia até anunciar Jesus como o fruto maduro de uma árvore que tem, a raiz em Abraão. Anuncia assim que ele é o realizador de todas as Promessas de Deus feitas a Abraão e, além disso, joga simbolicamente com o nome de David (que em hebraico corresponde ao número 14) para falar de Jesus como o Novo David, ou seja, o Messias. Os evangelistas não estão preocupados em mostrar-nos “dados biográficos” de Jesus, mas em fazer-nos ver que ele é o Messias de Deus, o Consagrado, o Cheio do Espírito.

Não perceberemos nada enquanto não tivermos claro que os evangelhos da infância não procuram responder à pergunta "COMO é que ele nasceu?", mas sim à pergunta. "QUEM é que nasceu?"

Lucas, por sua vez, como não é judeu e escreve para não-judeus, constrói uma genealogia que vai até Adão para anunciar Jesus como fruto maduro desta Humanidade saída das mãos e do sopro de Deus. Ele é o Novo Adão, o princípio de uma Nova Criação, a Cabeça de uma Nova Humanidade… por isso, o mesmo evangelista, no fim, vai anunciar Jesus a reabrir o Paraíso que Adão tinha fechado: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”…

Ambos constroem formas de dizer o nascimento daquele que anunciam como Re-Suscitado! Ele é o que “nasce da força do Espírito Santo”, é isto que anunciam, que é uma linguagem fortemente pascal! Mas é o gerado pelo Espírito não apenas na sua ressurreição da morte, mas desde o primeiro momento da sua vida. Nascer do Espírito não é um momento mas uma história de consagração… Jesus foi gerado pelo Espírito Santo como Filho de Deus em cada momento da sua vida. Nisso consiste a sua Fidelidade Filial, nesse deixar-se gerar pelo Espírito do Abba.

Os midrash da infância de Jesus são muito diferentes um do outro, apesar de nós conhecermos tudo junto pelas nossas imagens dos presépios e dos filmes e de tantas pregações devotas. Lucas (e só ele) é o que diz que “não havia lugar para ele”… É mais do que uma hospedaria e uma noite… É evidente isso em toda a vida de Jesus! Não havia lugar para ele nos esquemas estreitos da esperança messiânica do seu povo, representada em Belém, a cidade de David. Por isso ele teve que ir “para fora”… Quem lhe fez festa, além de Deus na voz cantante dos seus anjos? Só os pastores, que também andavam “fora”, que eram um dos grupos mais depreciados na sua cultura, que nem sequer podiam entrar no Templo de Jerusalém!

Até ao fim, àquela hora em que “o levaram para o lado de fora das muralhas de Jerusalém para o crucificarem”, aconteceu este inesperado inverter de lugares e papéis que Lucas simboliza de maneira tão profunda e simples logo no seu nascimento. Os que estavam “dentro” da esperança messiânica do seu povo não o acolheram; foram os outros, os “do lado de fora” do seu povo, os pobres, impuros e marginalizados que lhe fizeram o acolhimento e a festa…

Já Mateus vai por outro lado… No seu midrash, Jesus nasceu numa casa normal, não há manjedoura nem estábulo nenhum. Nem há pastores… mas também há não acolhimento, desta vez representado em Herodes que o quer matar. O não acolhimento vem por parte dos poderosos… Quem o acolhe? Quem o procura? Quem lhe faz a festa? Os magos vindos do Oriente… ou seja, os Pagãos! Esta era uma experiência que Mateus, ao escrever o evangelho, vivia na carne. A Igreja estava a difundir-se entre as cidades pagãs do império. Eram esses que acolhiam a Boa Notícia. Os magos vêm trazendo os seus presentes, e não são inventados por Mateus. Ele vai buscar textos do livro dos Números (24, 17) que falava da “estrela que naquele dia se há-de levantar” e do profeta Isaías que anuncia que “virão do oriente, trazendo os seus presentes, vindos de todas as nações, ouro, incenso e tudo o que é precioso” (60, 6)…

Entretanto, Herodes mandara matar todos os bebés… e Jesus teve que ser levado para o Egipto, de onde regressará depois, mais crescido… Conheces isto? Pois é… Moisés! Esse é o modelo que Mateus tem em vista sempre. Anuncia Jesus como o Novo Moisés, o novo Libertador de Israel, o Condutor de um Novo Povo. Por isso “decalca” do midrash bíblico de Moisés as cenas fundamentais para o seu midrash de Jesus. Assim como Moisés depois subiu ao cimo do monte para dar ao Povo a Lei dos Mandamentos, assim depois Jesus subirá ao Monte também para dar ao Povo a Nova Lei das Bem Aventuranças…

Lucas tem outro modelo… o profeta Samuel, aquele que ungiu David como Rei de Israel e Eleito de Deus, o profeta que aos doze anos tinha feito no Templo a experiência do chamamento para a sua missão… Por isso Lucas vai também falar de Jesus no templo com doze anos, como Samuel. Mas se a missão de Samuel era “escutar”, a missão de Jesus é “ensinar”.

O nascimento de Jesus segundo Lucas, por estar associado ao midrash da infância de Samuel, criado no Templo, está também muito ligado ao Templo. Além de fazer uma narração paralela à de João, filho de Isabel e Zacarias, sacerdote naquele ano do Templo de Jerusalém, fala de Jesus, ao oitavo dia prescrito na Lei, no átrio do Templo, ao colo do Profeta Simeão e da Profetiza Ana a ser acolhido como o anunciado por todos os profetas… O velho Simeão é o símbolo por excelência de toda a Antiga Aliança que dá lugar à Nova: “Agora Senhor, podes deixar o teu servo morrer em paz… porque os meus olhos já viram a salvação que tu tinhas prometido, a luz esperada por Israel, a glória do teu povo… pronto, Senhor, cumpri a minha missão, podes deixar-me partir…” (Lc 2, 24-32)

Estava lá também Ana, de quem o evangelista Lucas diz que era “mulher de idade muito avançada, que agradecia a Deus e falava daquele menino a todos os que esperavam a libertação de Israel”! Ana é o nome da mãe do Profeta Samuel… E não aparece apenas aqui. No midrash bíblico do nascimento de Samuel, Ana entoou um grande cântico de gratidão a Deus, por Ele ter fecundado a sua esterilidade. O cântico que Lucas coloca na boca de Maria e conhecemos como “Magnificat” é praticamente igual…

Em Mateus, Jesus tem que fugir para o Egipto porque Herodes quer matá-lo… Em Lucas, Jesus está no Templo a ser aclamado pelos Profetas… e nenhum deles está a dizer a “factualidade” do que terá acontecido… Só sabemos que foi, certamente, tudo muito mais “normal”… mas, ao mesmo tempo, também nenhum deles está a mentir! Porque não querem transmitir factos mas antes anunciar a Boa Notícia de Jesus Re-Suscitado como Salvador que nos foi oferecido por Deus e transfigura em si toda a história que o precede e o gera.

Jesus de Nazaré é um dos nossos! O exagero mariano que muitas vezes contaminou a nossa experiência de Fé também deformou muito a nossa maneira de olharmos para Jesus. Ainda me lembro como eu próprio, numa das primeiras aulas que tive em Teologia, fiquei ao mesmo tempo confundido e encantado com as expressões utilizadas por um professor de bíblia: “O que é que vocês pensam? Que Maria quando limpava o ranho ao menino guardava depois num lencinho porque era o ranhinho do Filho de Deus?! Ou pensam que não lhe lavava os cueiros que ele borrava porque era o cocó do Filho de Deus?! O mistério do seu filho era para Maria como era para ele mesmo: um mistério ainda a descobrir, e que não se perceberia inteiro enquanto não acontecesse a Ressurreição!”

Até hoje, nunca esqueci esse momento, e a maneira como me tocou…

Uns séculos após estes evangelhos, começaram a surgir outro tipo de escritos sobre Jesus que procuraram, alguns deles, contar detalhadamente a infância de Jesus. Foram escritos por autores gregos, muito longe da cultura bíblica, e não faziam a mínima ideia do que era um midrash como recurso literário para anunciar a Missão de alguém a partir de símbolos de outros que o precederam. Então, fantasiam… São puras fantasias. Chamam-se os “evangelhos apócrifos”. Falam de Jesus como um “ser divino caído aqui de pára-quedas”, a fazer de conta que era gente normal. Mas tinha todos os “atributos divinos”: omnipotência (podia tudo), omnisciência (sabia tudo), omnipresença (podia estar em toda a parte)…

Apesar de acharmos que não conhecemos estes relatos, eles estão muito presentes na linguagem da Fé, porque foram o alimento da devoção popular durante séculos! Era o Jesus que ia à escola mas sabia tudo, mais que os professores, sabia perfeitamente que era um “ser divino”, fazia passarinhos com barro, soprava-lhes e eles começavam a voar… e outras coisas!

Isto entrou-nos de tal modo, misturado com uma leitura literal dos evangelhos, que muitos têm dificuldade em entender que Jesus tenha crescido como qualquer um, “em sabedoria, estatura e graça”, como diz Lucas.
Que ele tenha passado a vida toda também a sondar o mistério da sua pertença ao Deus de Israel…
Que ele tenha aprendido…
Que o Espírito de Deus o tenha gerado com uma pedagogia muito especial pela qual ele se foi experimentando chamado a escutar a pregação de João…
depois a segui-lo…
depois a ser Profeta…
depois, começou a sentir-se animado pelo Espírito como consagrado á missão Messiânica ao serviço do Reino de Deus…
começou a perceber-se envolvido por Deus como num colo paternal que lhe segredava o encanto que tinha nele…
descobriu-se Filho, gerado no Espírito…
e, entre dúvidas, medos e angústias, decidiu-se a ser Fiel a todas estas experiências até ao fim, ainda que este fim implicasse a morte violenta!

A auto-consciência de Jesus não é um saber divino a priori, mas uma história que o Espírito Santo foi fazendo com ele e à qual ele foi absolutamente Fiel! Jesus cresceu, fez-se, aprendeu, descobriu… encantou-se, admirou-se e assustou-se diante das descobertas que fazia extraordinariamente conduzido pelo Espírito… Como diz depois a Carta aos Hebreus: “Ele aprendeu a obediência no sofrimento”… (Heb 5, 8) Aprendeu… e no sofrimento, na dúvida, na procura, às vezes angustiada, na fidelidade que se experimenta por vezes dolorosa…





A primeira experiência que os Apóstolos anunciam quando testemunham a ressurreição de Jesus é a intervenção poderosa de Deus sobre o pecado e a injustiça que tinham sido a causa da morte do Mestre. Deus agiu, com Poder, e derrotou as forças do mal que o tinham cravado na cruz. Deus agiu, com Poder, e venceu! Vitorioso pelo Poder do Espírito Santo de Deus, cheio dele, Jesus recebe do Pai a Missão de continuar a exercê-lo como o Pai o exerceu consigo. Poder para levantar, Poder para salvar. Quando lhe chamam “Senhor”, é já como profissão de Fé de que Jesus foi Re-Suscitado pelo Poder de Deus e esse Poder, que é a plenitude do Espírito, foi-lhe depositado nas mãos para que ele o exerça como o Pai.

Deus não tem outro Poder senão o de salvar. Os Apóstolos vão sempre anunciar isto, este Poder que Jesus recebeu do Pai e o constitui Salvador: é o Dom do Espírito que recebeu e derramou…

Nos evangelhos, este anúncio do Poder de Deus que é um Poder de salvar é anunciado com a linguagem dos milagres, das curas e dos exorcismos (libertação de demónios e espíritos impuros). É uma das linguagens fundamentais para exprimir o centro da Boa Notícia de Jesus: “O Reino de Deus chegou! Os cegos vêem, os coxos andam, os surdos ouvem…” (Lc 7, 22) É assim que Jesus começa na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, ele me ungiu para anunciar a Boa Notícia aos pobres, libertar os oprimidos, dar a vista aos cegos…” (Lc 4, 18) Ou então, respondendo aos fariseus: “Se os doentes ficam curados e expulso os demónios pelo dedo de Deus, é porque o Reino de Deus chegou!” (Lc 11, 20)

O Agir de Deus é contrário ao agir do pecado. Por pecado não entendemos simplesmente a falta diante de uma norma ou a desobediência de uma lei, mas um mistério mais profundo, relacional, que habita o ser humano desde as origens e tem a ver com o egoísmo, o impulso da posse, a violência e o medo, a mentira, a opressão e a injustiça…

A Humanidade não é apenas o conjunto de todos os indivíduos, cada um individualmente considerado com as suas virtudes e pecados… A Humanidade é como um Corpo em que todos somos membros uns dos outros, e a virtude e o pecado têm a ver com todos! Falar de pecado não é falar apenas de “desobediências individuais” mas de uma Doença do Corpo todo, um sangue mau que afecta todos os membros. Temos que entender o pecado, na sua profundidade, como contrário do Amor.

É neste contexto que se torna muito forte o anúncio de Jesus como aquele que “passou entre nós fazendo o bem, curando os doentes e libertando todos os possuídos por espíritos maus”, como dizia dele a Igreja primitiva. O primeiro sinal por excelência do Reino de Deus, da Nova Aliança no Espírito que se inaugura com Jesus, é a Cura das pessoas! Jesus começa a Curar membros deste Corpo que está todo ele chamado a ficar são pelo dom do Espírito, Sangue Novo derramado nele…

Os evangelhos foram escritos no contexto de uma cultura pré-científica. Isso é importante para percebermos que quando nos falam das doenças das pessoas não o fazem no universo da biologia ou da natureza, mas sim no universo de uma espécie de submundo espiritual. Com efeito, as causas das doenças eram espíritos impuros que possuíam as pessoas e lhes faziam mal, ou então eram castigos de Deus por causa do pecado, da própria pessoa ou dos seus antepassados. A doença era vista como um problema “espiritual” e não “médico” como hoje. Se não percebermos bem esta distinção, nunca vamos perceber o que significa então anunciar a “cura” das doenças…

Problemas como malformações à nascença, ou outras deficiências deste género que surgissem depois eram consideradas muitas vezes como castigo pelo pecado, e outras vezes eram consideradas resultado da presença de espíritos impuros. Problemas não visíveis corporalmente, como por exemplo febres, dores, ou infecções, eram considerados o resultado da presença interior de algum espírito impuro. Muitos deles tinham nomes, assim como nós hoje damos nomes às doenças. Nós hoje sabemos que uma febre é causada por uma infecção numa qualquer parte do corpo. Na altura, uma febre era causada porque tinha entrado na pessoa um “espírito da febre”. Problemas mais graves eram considerados possessões de vários espíritos, ou então espíritos mais fortes. Era o caso, por exemplo, de problemas como a epilepsia ou a demência grave que muitas vezes leva a actos tresloucados.

Estes espíritos impuros pertenciam a um submundo espiritual contrário a Deus que lutava contra a sua vontade. Por isso, lutavam contra o Ser Humano e o palco da luta era a história.

Quando os evangelistas apresentam Jesus a libertar pessoas dos espíritos impuros e a curar doentes (que é a mesma coisa!) não estão a proclamá-lo “curandeiro”, mas sim Libertador das forças do mal que afastam as pessoas da vontade de Deus, que coincide com o seu próprio bem, e as arrastam para uma condição sub-humana.

É fundamental perceber esta distinção: a causa das doenças no mundo bíblico explica-se pelo pecado, não pela biologia! São as forças do pecado presentes na história que causam as doenças. Ao narrar Jesus a curar doentes, é este o ponto de partida dos evangelistas.

Na nossa mentalidade, um milagre é uma intervenção extraordinária de Deus a vencer as leis da natureza. Mas não na cultura bíblica! Na linguagem da Fé, o milagre é uma maneira de dizer a intervenção extraordinária de Deus a vencer as leis do pecado!

Estamos habituados a ver as curas físicas como milagres. Mas nos evangelhos não é assim… as curas físicas que os evangelistas narram são o SINAL do milagre, que tem a ver com a cura de um pecador do seu pecado. O milagre não é a libertação de uma pessoa das leis da natureza, mas a libertação da pessoa das leis do pecado e da maldição.

O relato mais evidente disto é o do paralítico a quem Jesus, diante dos fariseus disse: “Homem, os teus pecados estão perdoados!” E eles começaram a dizer: “Mas quem se julga este para perdoar os pecados?!” Então Jesus, depois de um breve diálogo com eles, disse-lhes: “Pois bem… e para que saibais que o Filho do Homem tem poder para perdoar os pecados – disse ao paralítico – Levanta-te e anda!” (Lc 5, 20-25)

A cura física é sinal do milagre que consiste na vitória sobre o pecado. As tantas curas e reanimações de mortos que aparecem nos relatos dos evangelhos são anúncio pascal da Boa Notícia de Jesus Re-Suscitado, Senhor da História, que está pelo Poder do Espírito a vencer o pecado e a morte.

É isso mesmo que anunciam também, por exemplo, quando falam dele a caminhar sobre as águas revoltosas do mar… O mar era naquela cultura símbolo desse submundo terrível que matava o Ser Humano na sua essência de criado por Deus para ser Livre e Digno! Era o “lar” de todos os espírito impuros… No livro de Job, por exemplo, do Antigo Testamento, é expresso este medo dos “monstros e criaturas marinhas” símbolo dos nossos medos. O mar era o enorme desconhecido… Antes de haver botijas de oxigénio ou submarinos, era um lugar de escuridão mortal. Nunca ninguém se tinha aventurado a tocar-lhe o fundo e tinha regressado vivo.

“Ele caminhava sobre as águas… (Mt 14, -25-32) e disse-lhes: Calai-vos! Estai quietas! E tudo ficou calmo… (Mc 4, 39)” Jesus é o vencedor sobre a força do pecado e da morte, vencedor pelo Poder que Deus exerceu nele na sua ressurreição! E partilha connosco esse Poder, como fez com Pedro a quem convidou a caminhar também sobre as águas. E ele caminhou! Quando veio o medo e ele começou a afundar-se, Jesus então estendeu-lhe a mão e levou-o para o barco de novo…



Estamos muito habituados a pensar que Jesus falasse como o “padre lá da freguesia” quando éramos pequenos, ou como a catequista… Sempre a dizerem-no que temos que ser assim e assado, ser bons meninos, ajudar toda a gente e ter só amigos! Ao lermos os evangelhos, muitas vezes é com estes esquemas morlizantes que nos encontramos com o que nos é transmitido. Onde isto mais se nota é na interpretação que costumamos fazer das Parábolas… mas, será o objectivo das Parábolas servirem como fábulas moralizantes para as sessões de cateques? Certamente que não! O seu objectivo é anunciar o modo da presença de Deus no meio de nós e colocar-nos diante dos olhos como é que a vida acontece quando Deus Reina, quando Deus tem espaço para mandar e mudar com o Seu Amor.

Por não entendermos isto muito bem é que acontece muitas vezes passar-nos completamente ao lado a Boa Notícia que Deus nos está a transmitir em Jesus, de maneira especial nas suas Parábolas, porque andamos à procura do “ralhete” ou do “bom conselho” que ele nos dá desta vez. São Notícias do Reino de Deus, anúncio do admirável mundo novo que emerge do Coração de Deus para todos os seres humanos, e nós conseguimos convertê-las em primárias histórias didácticas e morais…

A Boa Notícia é fundamentalmente a de um Deus que Vem, se faz próximo, para Cuidar, para curar, para acolher, para fazer acontecer o perdão, para pôr de pé, não para ralhar! Não vem para mandar nem para castigar. Não chega com conselhos e regras de bom comportamento! Não vem cheio de si mesmo, impor-nos nada. Vem para nós… por nós… Para que sejamos Livres e Felizes pelo Amor que nos dedica e pelas descobertas que Ele pode provocar em nós…

As Parábolas são Boas Notícias extraordinárias que Jesus conta… Vamos entender melhor.

Contar Parábolas era uma forma de comunicar e ensinar muito característica de todas as culturas antigas, ricas em transmissão oral. Jesus era Mestre nesta arte para anunciar o Reino de Deus, a notícia do Deus que vem para estar junto do Seu Povo. “Jesus dizia assim: Com que compararemos o Reino de Deus?! Com que parábola falaremos do Reino de Deus?! […] Com muitas parábolas lhes expunha a Notícia, adaptada às suas capacidades. Sem parábolas não lhes expunha nada. E depois, em particular, explicava tudo aos seus discípulos.” (Mc 4, 30-34)

Jesus nunca dá definições do Reino de Deus, o centro do seu anúncio. Conta parábolas dele, ensina segundo os critérios deste Reino e exprime a sua presença pelos seus próprios gestos e opções. O essencial da vida, de facto, não é de “perceber”, mas de Acolher. É para isso que servem as Parábolas… Para propor, para abrir a vida de quem escuta a uma nova maneira de a viver, para apontar caminhos e aproximar de qualquer coisa que está ao alcance, não através de compreensões teóricas, mas de mudança de valores e atitudes.

Uma Parábola é como que uma “fotografia” instantânea tirada num lugar qualquer que não o que vivemos, onde vemos que as coisas acontecem de maneira diferente… O que fica em causa, depois, não é acreditar ou não acreditar, concordar ou não concordar, mas sim aceitar ou não aceitar que aquilo possa fazer sentido também no “aqui” de cada um. Jesus contava as Parábolas como forma de anunciar a Boa Notícia! Percebamos o que significa chamarmos “Notícia” às Parábolas…

Uma notícia começa por ser um dom, uma revelação. É um conhecimento que nunca poderíamos ter se não nos fosse dado, transmitido por outro. É um conhecimento ao qual não se chega por si mesmo mas por revelação. E o que é a Boa Notícia – em grego: Evangelho – senão isto mesmo?! Dom, Revelação… Na linguagem bíblica chama-se também a isto “Mistério”, que não é o “enigma” da nossa linguagem quotidiana, mas é o conhecimento ao qual não se chega por estudo ou dedução, mas apenas por revelação, transmissão, dom gratuito. Mistério, em linguagem bíblica, não significa “enigma”, mas “revelação” daquilo que não se alcança sozinho e que nenhum conhecimento esgota.

Além disto… Uma notícia liga dois mundos, aproxima-os. Quando nos chegam as notícias do que se passa em qualquer ponto do globo, sentimo-nos unidos a esses acontecimentos, próximos das pessoas envolvidas, parte da sua sorte.

É importante libertarmo-nos das perspectivas moralistas já doentias na interpretação destas coisas e entendermos as parábolas que Jesus conta como Notícias do Reino de Deus! Como um “Enviado Especial” que nos conta as Notícias do Reino de Deus, a maneira como as coisas acontecem nesse recanto do mundo que é o próprio Coração de Deus onde nós também temos lugar, que precisamos que nos dêem a conhecer porque, sozinhos, nem nos daríamos conta…
As parábolas não são as histórias moralizantes de Jesus nem nós somos os seus “meninos da catequese”, mas sim as histórias do Reino de Deus, “as Notícias do que por lá se passa”… E este “lá” é AQUI, se nós deixarmos…

Como qualquer Notícia, são um dom, uma revelação, uma transmissão à qual não chegaríamos por nós mesmos. Por isso nos surpreendem, nos “apanham” desprevenidos… E movem-nos por dentro, porque nos ligam a uma realidade que está fora de nós, transcende as fronteiras limitadas das nossas rotinas quotidianas, convida-nos a sairmos de nós mesmos, aproximam-nos do mundo que nos revelam…

A própria palavra “parábola” vem do verbo grego “parábalô” que significa exactamente “Aproximar-se”! As Notícias do Reino de Deus desvendam-nos esse mundo e aproximam-nos dele. Esse mundo que não está diante dos nossos olhos, é verdade, mas também não está do outro lado do planeta nem da vida. Por isso é um mundo que precisa continuamente de ser desvendado, como todas as coisas que não estão diante dos nossos olhos mas dentro deles. Às vezes é mais importante termos quem nos ajude a ver o que está Dentro de nós e da nossa Vida do que aquilo que está simplesmente longe…

As parábolas de Jesus, como Notícias do Reino de Deus, desvendam-nos e aproximam-nos da presença desconcertante d’Aquele que habita o íntimo das nossas vidas e das nossas relações. Por isso, deixar-se encantar pela Notícias do Reino e aproximar-se cada vez mais dele coincide com um processo de conversão do Coração, das atitudes, dos gestos, dos projectos… Porque é um mundo que se toca, descobre e habita por dentro.

As Notícias e as histórias deste Reino, que está Próximo e no Meio de Nós, falam-nos de um mundo onde nada nem ninguém fica perdido para sempre, porque há por lá um Amor desconcertante que persegue incansavelmente o que perdeu e espera sem desistências a oportunidade de dar-lhe vida de novo, seja uma ovelha, uma moeda ou um filho… (Lc 15) É um mundo onde aquilo que conquista por aqui a grandeza e o poder é considerado lá indignidade e recusa, onde quando se põe a mesa e se prepara um Banquete com tudo do bom e do melhor não há quem deixe de ser convidado e praticamente obrigado a aceitar, ainda que sejam daqueles que por aqui são considerados pobres, esquisitos, marginais, pecadores, incapazes e toda a outra corja de gente que era suposto não ser convidada ou, pelo menos, recusar por vergonha (Lc 14, 15-24)

As parábolas dão-nos Notícia de um mundo em que ninguém está caído na valeta para sempre, onde as réguas para medir “bons e maus” não existem porque o único que conta é ter olhos capazes de ver, ouvidos capazes de ouvir, coração capaz de se compadecer, mãos capazes de ajudar e bolsos capazes de se abrir (Lc 10, 30-37)…

O Enviado Especial desvenda-nos a novidade de um Reino em que os pobres têm Nome e deixaram de o ser (Lc 16, 19-31), onde os números não contam como aqui, e por isso recebem exactamente o mesmo louvor aqueles que se apresentam com dez e com quatro denários, porque a única “medida” é a da verdade e generosidade com que cada um se dedicou a fazê-los render (Mt 25, 14-30).

E, ACIMA DE TUDO, estas Notícias do Reino de Deus desvendam-nos o rosto surpreendente e maravilhoso do Deus deste Reino, que não Se comporta como Rei mas como Pai. Revelam-nos o agir desconcertante de Deus em favor dos “últimos que se tornam os primeiros”, o Seu projecto de acolher todos os Seres Humanos no Seu Reino como um Pai que convida toda a gente para a Festa das Bodas do Seu Filho.
Este é o objectivo máximo das parábolas de Jesus: o anúncio de um Deus maravilhoso, o Deus do Reino de que Jesus falava e chamava Abba, Papá! As Parábolas servem para falar ACIMA DE TUDO d’Ele, não de nós, dos Seus gestos, não dos nossos, da Sua iniciativa, nas das nossas demissões, do Seu Amor, não das nossas imperfeições, do Seu Desejo Salvador, não dos nossos supostos méritos disso!

E cada Parábola de Jesus é um Hino de Esperança para os mais fracos… Porque anuncia o Poder de Deus para além de todos os poderes humanos e a Força do Reino como detentora da última palavra na História… Não eram uma Boa Notícia simplesmente por ser sempre muita “paz e amor”, mas porque tudo na ordem daquele Reino de que as Parábolas falam estava voltado para o cuidado libertador dos pequenos, para a cura das suas misérias, para a restauração da sua vida!

O “tema” mais comum a todas as parábolas tem a ver com a Vitória do Fraco! Todas as imagens do Reino de Deus são assim, Jesus não era ingénuo… o Reino acontece, cheio de poder, força, vigor… mas o poder, força e vigor da Semente que fura a terra, não com o poder, força e vigor das legiões romanas ou americanas.

No entanto, temos que conhecer bem estas Notícias do Reino de Deus que nos falam permanentemente da Vitória do Fraco, para não cairmos na tentação de pensar que é a Vitória do Fraco sobre o Forte. Não! As notícias do Reino falam-nos da Vitória do Fraco sobre a Fraqueza! E falam do Fim do Forte, também. Mas não é a Fim do Forte às mãos do mais Forte, ou às mãos do Fraco que o vence, mas o Fim do Forte debaixo da sua própria Força...

Cada Parábola coloca no mais íntimo daqueles que as escutam a Esperança de que o Mundo das Bem Aventuranças é mesmo possível, está próximo, e já existe no meio de nós… Aproximam-nos dele, fazem-nos tocá-lo de alguma maneira, percebê-lo melhor e colaborar mais conscientemente na sua emergência…


4. Jesus e a sua Morte

Quando falámos dos midrash da infância já tocámos no assunto do conhecimento e da consciência de Jesus. Um dos motivos pelos quais também nos entra a ideia de que ele sabia tudo o que lhe ia acontecer “tim-tim por tim-tim” é a maneira como nos evangelhos o próprio Jesus aparece a predizer a sua morte e ressurreição, com os três dias pelo meio e tudo. Mas, então, porque é que ele, nessa hora se angustiou? Porque é que sofreu essa hora como um sem sentido que ele próprio não entendia e pedia ao Pai que passasse? E porque é que dois dos evangelistas não fogem a dizer que as suas últimas palavras foram o grito de um abandonado?

Os evangelhos são como aqueles “relatos” de um jogo em diferido, quando o locutor já sabe como ficou o resultado final. Durante o próprio relato, vai lembrando como é que a coisa ficou no fim…

É a própria experiência de Fé das comunidades que aparece expressa nessas frases de Jesus em que prediz o acontecimento pascal com palavras como estas: “O Filho do Homem vai ser entregue aos chefes do povo e aos sacerdotes, vai sofrer muito, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar.” (Mc 8, 31)
É o Re-Suscitado quem fala sempre nos evangelhos, através das experiências de Fé das comunidades que lhes dão origem.

Mas há duas coisas muito importantes que explicam o porquê dos evangelistas colocarem na boca de Jesus estes anúncios da sua paixão. O primeiro é anunciar o modo como o Mestre enfrentou a sua morte, aquela experiência dolorosa de ser vítima de uma injustiça enorme e ter que aceitar a sina dos Profetas do seu povo… Jesus foi-se dando conta que o cerco farisaico e sacerdotal estava a apertar cada vez mais, isso era evidente. E,
na hora do último embate, Jesus converteu no seu Coração, pela força do Espírito Santo, a fatalidade em Testemunho.

A expressão-chave desta conversão que Jesus operou no seu íntimo é-nos dada pelo evangelista João: “Ninguém me tira a Vida, sou eu que a dou livremente!” Jesus não passou por nada disto como quem se deixa arrastar pela força de uma fatalidade ou levar pelos ventos de uma tempestade incontrolável… Jesus assumiu estes acontecimentos à volta da sua morte, ainda que injustos e pecaminosos, como apelo e possibilidade de doação máxima de si próprio à causa do Reino de Deus. “Este é o meu Corpo que será ENTREGUE”, não roubado… “Este é o meu Sangue que será DERRAMADO”, não sugado… “Ninguém me tira a Vida, sou eu que a dou livremente!”

Aquela Última Ceia com os seus, que Jesus preparou com tanto zelo, é o gesto mais evidente e intenso desta consciência de Jesus, desta transformação da injustiça que lhe estavam a armar em oportunidade e possibilidade máxima de testemunho, doação de si mesmo, oblatividade, como sempre tinha entendido a sua missão… Aquele gesto de partir o pão e partilhar o vinho como sinais da sua própria Vida entregue foram a visibilidade do que estava a acontecer no seu íntimo…

Nesse gesto de Jesus, tão consciente e confiante, vemos em movimento aquilo que o evangelista nos deixou através das palavras “Ninguém me tira a vida… Sou eu que a dou livremente…”

Mas há ainda um segundo motivo muito importante para nos aparecerem na boca de Jesus os anúncios da sua própria paixão como algo que ele assumia como única maneira de realizar a sua missão. Este segundo motivo refere-se à necessidade permanente dos discípulos de Jesus se converterem realmente ao Mestre…

Quando o primeiro evangelho foi escrito tinham apenas passado cerca de 35 anos sobre todas essas coisas. Mas já era necessário voltar a descobrir o rosto do Mestre, já era preciso voltar a espantar-se com o inesperado do seu messianismo, já era preciso voltar novamente a ele para reaprender a ser discípulo! Nestes relatos dos evangelhos em que Jesus anuncia a sua paixão, o que vem a seguir é sempre o mesmo: os discípulos não compreendem e não aceitam! Este é um dos relatos mais conhecidos: “Jesus falava-lhes destas coisas (da sua paixão e sofrimento) abertamente. Então Pedro, chamando-o à parte, começou a repreendê-lo dizendo: Deus te livre, Senhor! Isso nunca te acontecerá! Jesus, porém, voltou-se e vendo os seus discípulos, repreendeu Pedro dizendo: Põe-te atrás de mim, Satanás, porque não pensas segundo o pensamento de Deus mas segundo o pensamento dos homens!” (Mc 8, 32-33)

Este relato em que Jesus “fala abertamente” do seu caminho sofredor e da sua missão humanamente fracassada e em que os discípulos não aceitam não é uma “história de Jesus com os seus discípulos” para lermos à letra. É uma catequese, um apelo muito forte aos discípulos de todos os tempos, aos membros das comunidades cristãs, aos admitidos à escuta do Evangelho… O apelo à Fé num Messias Crucificado que nos liberta de todos os triunfalismos, de todas as vontades de dominar e ensinar segundo o mundo, que nos cura do desejo de ser grande, forte e vencedor segundo as regras dos homens… É incrível como apenas 30 ou 40 anos depois de Jesus já era preciso dizer isto aos seus discípulos… Muito mais a nós, hoje, marcados por décadas de cristandade em que religião e prestígio andaram sempre tão próximos…

Ao colocar estes anúncios da paixão sofredora e da ressurreição na própria boca de Jesus, os evangelistas estão a anunciar um núcleo fundamental da Boa Notícia do Reino de Deus que é a libertação de todos os triunfalismos e poderes segundo o mundo.

Não é o Jesus “histórico” que nas suas conversas com os discípulos lá pela Palestina tinha essas tiradas absolutamente masoquistas e de mau gosto… É Jesus Re-Suscitado, o Vivente Connosco, que nunca deixa de lembrar aos seus discípulos de todos os tempos e lugares, reunidos, que o caminho de Deus não é o do sucesso dos senhores deste mundo, não é o do domínio triunfalista dos poderosos e dos deuses que eles levam pintados nos estandartes para as suas guerras e sermões…

É Jesus Re-Suscitado, o Vivente, que está comprometido com os seus discípulos de todos os tempos e lugares, reunidos, para os fazer vencer as tentações que ele mesmo venceu no deserto da sua luta: vencer as tentações do poder e do sucesso triunfal simbolizadas nas pedras que seriam pão, no salto do pináculo do templo ou no domínio de tudo o que se via no alto do monte onde o mal é capaz de nos colocar…


5. Relatos Pascais

Testemunhar a Presença de um Re-Suscitado é certamente das tarefas mais delicadas que existem a quem transmite uma Notícia… Mas, por outro lado, é também um dos apelos mais necessários no íntimo de quem o faz, porque é o ponto de partida, é o motivo principal de tudo o resto que se diz!

No Kerygma, a Ressurreição de Jesus é proclamada como intervenção vitoriosa de Deus e dom do Espírito que vivifica e se derrama por ele. É um mistério de Salvação para toda a Humanidade como depois se aprofunda e celebra no Caminho Catecumenal que se faz em comunidade. Os evangelistas anunciam algo muito bonito, uma etapa “à frente”: como é que Jesus está connosco?

Os relatos das Aparições de Jesus Re-Suscitado são catequeses pascais muito bonitas e densas em que se misturam símbolos bíblicos do Antigo Testamento, as experiências mais fortes que os discípulos fizeram com o Mestre relidas à luz da vitória pascal, e o anúncio da sua condição de Filho de Deus no Espírito e Salvador. São sempre “aparições”, uma linguagem bíblica para o que nós costumamos dizer de outra maneira: Encontros. As experiências pascais são sempre Encontros de Jesus com os seus…

Nestas catequeses pascais é fundamental o lugar da Comunidade como contexto da experiência. É a Comunidade que Corporiza o Re-Suscitado, que cria as mediações e condições para ele se Encontrar com todos. De maneira particular, aqueles primeiros tinham a mediação da convivência histórica com Jesus e certamente aqueles primeiros dias depois da sua morte foram dias de Memorial

Esse foi o contexto privilegiado para reconhecerem que ele continuava Presente. Vão sempre falar da ressurreição de Jesus segundo a sua própria experiência dela: ao terceiro dia. É importante percebermos a diferença entre Ressurreição de Jesus e Experiência Pascal dos Discípulos. A primeira aconteceu no próprio mistério da sua morte, na cruz. A segunda aconteceu ao terceiro dia. Depois a Ressurreição do Mestre será sempre anunciada a partir da experiência que os seus discípulos fizeram dela: “ressuscitou ao terceiro dia”. Foi assim que o experimentaram, foi assim que entrou nas tradições orais que percorriam as comunidades.

O que não significa que Jesus tenha ficado “de molho” na morte durante três dias! Nenhum evangelista diz uma coisa dessas. Mateus, por exemplo, diz que no momento em que Jesus expirou, na cruz, “os sepulcros começaram a abrir-se e os mortos começaram a ressuscitar”! O Dom do Espírito que Ressuscita os mortos começou na Hora da sua ressurreição que aconteceu já na cruz. O evangelista Lucas, por sua vez, coloca na boca de Jesus estas palavras: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso…”

O “terceiro dia” não é uma anotação de calendário, mas a transmissão de uma experiência, aquela experiência que os discípulos fizeram para reconhecerem Jesus vivo com eles. Ao testemunhar-nos a conversão pascal de Paulo, Lucas nos Actos dos Apóstolos diz que também ele ficou “três dias sem ver, sem comer nem beber” até que lhe caíram as escamas dos olhos… Estes “três dias” tornaram-se na Fé a linguagem simbólica de uma experiência de conversão pascal pelo Encontro com Jesus Re-Suscitado.

Os relatos pascais são catequeses densas, e com uma linguagem que nós já “visualizámos” tanto que se torna, às vezes, difícil de “desmontar” dentro da nossa cabeça… por isso, vamos conhecer estes relatos a partir de quatro dimensões fundamentais da experiência pascal tal como eles a testemunham: Reconhecimento, Presença, Compreensão e Mudança.



1Reconhecimento

“Então eles reconheceram-no!” (Lc 24, 31). Esta é uma linguagem evangélica típica para narrar a Experiência pascal dos Apóstolos. A Experiência Pascal é uma experiência de Fé que se faz nas coordenadas do Espírito Santo, possibilitada pelo contexto comunitário e pela partilha da Palavra de Deus que, no caso dos primeiros Apóstolos, se realizava muito concretamente pela lembrança e releitura da convivência histórica com Jesus.

“Estavam eles reunidos” (Jo 20, 19-26), conversando, meditando e relendo certamente os acontecimentos desses dias à luz dos três anos anteriores, e vice-versa. Ou os discípulos a caminho de Emaús, por exemplo, que “conversavam pelo caminho sobre tudo o que se tinha passado nesses dias referente a Jesus” (Lc 24, 13-24)…

É neste contexto que eles começam a Reconhecer a presença do Mestre, de um jeito absolutamente novo. Sentem que continua a ser o mesmo Jesus o autor das intuições e impulsos interiores que os estimulam a continuar a sua Missão. Reunidos, reconhecem que a Fidelidade do Mestre não o atirou para um abismo, porque Deus tomou o seu partido!

A primeira dimensão da Experiência Pascal daqueles primeiros discípulos é esta do Reconhecimento. Como alguém a quem conhecemos e de quem nos separamos por um tempo mas, ao voltar, embora muito diferente, nós acabamos por reconhecer pelo modo como está connosco, como nos fala, como nos toca… A maneira como experimentam este “Ele apareceu-nos!” que testemunham foi certamente fortíssima… Porque mesmo quando o evangelista diz: “E, ao reconhecerem-no, ele desapareceu…” eles não vão depois dizer “Ele desapareceu-nos!” Porque, o que está por baixo deste testemunho é o anúncio de que o Mestre, Re-Suscitado, lhes apareceu de uma maneira que não desaparece mais! É o Vivente no Espírito de Deus… não morre mais, e é sempre nosso contemporâneo e companheiro.

O jeito que os evangelistas encontraram para dizer esta experiência de reconhecimento foi colocar Jesus a realizar como Ressuscitado o mesmo que tinha feito com os discípulos na história. Por isso Jesus Ressuscitado nos é apresentado no mesmo relato a “entrar numa sala com as portas e janelas fechadas” e dizer “Toca-me! Põe aqui o teu dedo e toca o meu lado!” (Jo 20, 19-27) ou a “comer peixe assado” (Lc 24, 42)! É uma maneira muito simples e narrativa de dizer o seguinte: ele, agora ressuscitado, faz-se presente em coordenadas absolutamente novas, interiores; mas é ele mesmo, o Mestre que conhecemos e seguimos, que continua a realizar connosco o mesmo que realizava na história! É ele mesmo, com quem comemos, caminhámos, nos sentámos, espantámos e aprendemos a ver na história e nas escrituras a acção sempre nova de Deus… Ele mesmo continua a fazer tudo isto com os seus discípulos! É nisto que consiste a experiência pascal.

A Experiência pascal é sempre uma experiência relacional. Daí a dimensão do Reconhecimento, ou seja, a experiência íntima de continuidade de uma relação iniciada na convivência histórica. Por isso é que nos surge esta linguagem que, à letra, não tem sentido possível: “Jesus falou a Maria, no jardim, mas ela não o reconheceu. Sabes onde puseram o meu Senhor?! E Jesus disse-lhe: MARIA!” (Jo 20, 11-16) Então, ela Reconheceu que era ele! A Experiência pascal dos primeiros discípulos é um Reconhecimento Relacional. Reconhecer, aqui, implica também sentir-se Reconhecido pelo Senhor que vem…

“Jesus pôs-se no meio deles enquanto iam a caminho de Emaús. Mas os seus olhos não o reconheceram… Depois de lhes explicar as escrituras, entrou em casa com eles, sentou-se à mesa e partiu o pão. Ao partir do pão, reconheceram-no!” (Lc 24, 29-31) O Reconhecimento Pascal é uma experiência de continuidade das acções históricas de Jesus, mas agora realizadas numa nova densidade.

Ou então: “Os discípulos andavam à pesca mas não tinham apanhado nada… Jesus veio, e da margem falou-lhes: Rapazes, tendes alguma coisa para comer?! Eles disseram que ainda não tinham apanhado nada… Então, Jesus mandou-os lançar as redes para o outro lado”, tal como tinha feito no início… “Nesse momento, o discípulo amado reconheceu-o e disse: É o Senhor!” (Jo 21, 1-8)

É muito bonito ver que nos evangelhos nunca nenhum discípulo precisa de perguntar ao Ressuscitado quem é, e Jesus também nunca precisa de se apresentar. A convivência histórica com Jesus era a “chave de leitura” da experiência interior que faziam animados pelo Espírito Santo.

Ao contrário destes está Paulo. O grande Apóstolo da Igreja nascente não tinha sido discípulo directo de Jesus, não tinha convivido historicamente com ele. Por isso, quando Lucas narra a sua Experiência Pascal no caminho de Damasco, não o faz como uma experiência de Reconhecimento mas sim de Descoberta: “Quem és tu?”, teve Paulo que perguntar. E Jesus respondeu: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues!” (Act 9, 5)

Paulo não tinha a “chave de leitura” dos outros Onze…

Enquanto Lucas diz em relação a esses: “Então os seus olhos abriram-se e reconheceram-no!” (Lc 24, 31) em relação a Paulo diz: “Então ficou cego, não podia ver e teve que ser conduzido pela mão” (Act 9, 8). Para onde? Para casa de Ananias, um discípulo de Jesus, que teve a Missão de fazer Paulo Conhecer a Experiência que estava a viver. Depois disto, então, “caíram-lhe dos olhos como que umas escamas” (Act 9, 18)…

Para Paulo, como para todos os discípulos de Jesus que não tiveram com ele experiência histórica, a Experiência Pascal é um caminho de Descoberta e Conhecimento de Jesus Ressuscitado, tendo sempre como ponto de referência a experiência de Reconhecimento dos primeiros.

Esta primeira dimensão da Experiência Pascal dos discípulos de Jesus, o Reconhecimento, também se podia dizer como experiência de “continuidade”, na medida em que corresponde ao que Jesus tinha dito: “Eu não vos deixarei órfãos!” (Jo 14, 18)

Este Reconhecimento diz-se várias vezes nas narrações pascais dos evangelhos desta maneira simples: “É ele!”




2Presença

Este Reconhecimento implica a experiência da Presença. Os evangelistas têm bastante dificuldade em dizer esta Presença, evidentemente, porque escapa ao alcance das palavras. Mesmo hoje, sempre que vemos filmes da vida de Jesus, o Re-Suscitado aparece sempre igual ao anterior, como a reanimação de um cadáver, só que com mais brilho e luz branca à volta… Não se consegue dizer nem representar um Re-Suscitado.

Para narrar esta Presença de Jesus utilizam muitas vezes a expressão “no meio deles” (Lc 24, 36), como Jesus tinha prometido: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu Nome, eu estarei no meio deles!” (Mt 18, 20)

E, como já vimos, dizem no mesmo relato que se fez presente no meio deles atravessando portas e janelas fechadas, e depois está a mostrar as mãos e o lado ao Tomé, pedindo-lhe que tocasse! Ou, então, falam dele a comer!!! Tudo isto é linguagem evangélica para proclamar que a identidade do Ressuscitado é a de Jesus de Nazaré mesmo! “Não é um fantasma, não é uma invenção dos discípulos, não é uma alucinação colectiva – foi destas acusações que os discípulos tiveram que defender-se – É ele mesmo!”

Numa cultura que não conhecia as típicas distinções gregas entre “alma e corpo” mas via o ser humano como Unidade orgânica, o modo de proclamar a identidade histórica do Ressuscitado é salientar a sua corporeidade. É neste horizonte que devemos entender também o porquê de ter surgido nos evangelhos a tradição do “sepulcro vazio”, argumento que nunca foi utilizado por Paulo nas suas cartas para falar da Ressurreição de Jesus. Para Paulo bastava anunciar que os primeiros Apóstolos tinham feito Experiência Pascal, e depois mais de quinhentos irmãos, e por fim o próprio Paulo (1Cor 15, 1-8)

Foi só depois, na altura em que os evangelhos foram escritos, que ganhou importância a linguagem do sepulcro vazio por causa das acusações que eram feitas aos Apóstolos e para defender a identidade histórica do Ressuscitado. Infelizmente, isto fez com que depois se falasse durante séculos da Ressurreição como se fosse uma reanimação biológica!

Uma Fé madura sabe que a Ressurreição acontece num horizonte da Vida em que a biologia já não tem lugar! É a incorporação definitiva e plenificante no seio da Família Divina. Uma Fé esclarecida biblicamente não tem receio de professar “Creio na Ressurreição da Carne” porque já compreende que “Carne” em sentido bíblico não é um conjunto de tecidos orgânicos, mas o Ser Humano enquanto realidade pessoal em construção histórica e relacional. Implica a compreensão da Humanidade como Corpo…

No tempo evangélico, os crentes não acreditavam na Ressurreição de Jesus por causa dos relatos do sepulcro vazio! Pelo contrário, a linguagem do sepulcro vazio é que surgiu para anunciar a Ressurreição de Jesus, na medida em que acentuar a sua Corporeidade, naquele contexto cultural, era uma maneira explícita de afirmar a sua identidade e continuidade histórica, ainda que de um modo totalmente novo. Por outras palavras: não foi a existência de um sepulcro vazio que deu orifem à Fé Pascal, mas foi a Fé Pascal que deu origem à tradição do sepulcro vazio como forma de anunciar a identidade história do Re-Suscitado como Jesus, o Nazareno crucificado.

Uma maneira bonita que os evangelistas encontraram de dizer este modo novo da Presença de Jesus foi a impossibilidade de ser “agarrado”. No momento em que, ao partir do pão, os discípulos de Emaús o reconheceram, ele desapareceu! É uma presença real, mas não localizada, não manipulável (Lc 24, 31).

Os discípulos começaram a experimentar que Jesus estava Presente do mesmo modo como ele próprio falava da Presença do Pai. Quando Jesus dizia “Faço a Vontade do meu Pai… Faço o que o Pai me manda… Digo-vos o que ouvi do meu Pai… Eu no Pai e o Pai em mim…”, os discípulos não podiam entender totalmente o alcance do que Jesus dizia. Agora sim, depois da experiência Pascal.

Começam a perceber que Jesus está Presente do mesmo jeito, que é a sintonia no Espírito Santo. Intimamente, revela-lhes a sua vontade, aponta-lhes as suas opções, ilumina as suas decisões… A unidade e obediência de que Jesus falava em relação ao Pai é a mesma unidade e obediência que os Discípulos vão descobrir em relação a Jesus. Esta é a sua presença, a unidade no Espírito Santo.




3Compreensão

Naqueles três dias sepulcrais que os discípulos viveram, certamente releram toda a sua história com Jesus à luz do acontecimento da sua morte. Esse foi o contexto e a dinâmica da Palavra que possibilitou no seu íntimo a acção reveladora do Espírito Santo que os conduziu ao Encontro Pascal. Então, releram de novo a sua história com Jesus, já não à luz da sua morte injusta e aparentemente fracassada, mas à luz da Vitória pascal, da opção de Deus em tomar o partido de Jesus e do próprio lugar de Jesus no Coração de Deus

Aqui, tudo mudou! Na morte de Jesus morreram muitas expectativas dos discípulos, muitas esperanças, umas quantas ilusões e equívocos antigos do judaísmo… Morreu o triunfalismo divino e a ilusão do messianismo à imagem do antigo e brilhante Rei David…

E tudo isto que os discípulos experimentaram naqueles três dias sepulcrais foi fundamental para eles poderem Nascer de Novo! Todas as palavras, parábolas e gestos do Mestre ganharam novo alcance à luz da Páscoa. Esta experiência foi profundamente libertadora porque os desatou do enorme peso do absurdo, da injustiça, da desilusão e do medo!

Aparecem-nos ao longo dos evangelhos expressões como esta: “Jesus disse: destruí este Templo e eu o reedificarei em três dias… Jesus falava do templo do seu Corpo! Por isso, depois da sua Ressurreição, os discípulos lembraram-se de que ele tinha dito isto e acreditaram na Escritura e nas palavras ditas por ele!” (Jo 2, 18-22)

O próprio “segredo messiânico” é um sinal disto. Muitas vezes Jesus proibía que as pessoas o anunciassem como “Messias”, sobretudo aquelas que tinha curado (Mc 8, 29-30). O motivo era que anunciariam um “Messias” que ele não se sentia minimamente inspirado a ser! Os próprios discípulos tinham um horizonte messiânico muito diferente do de Jesus, como é evidente na “reprimenda” que Pedro lhe dá logo depois de o proclamar Messias (Mc 8, 32) ou no pedido dos dois irmãos à procura de “tachos” no futuro Reino Messiânico que confundiam com um renovado reino de David (Mc 10, 35-37)…

Com efeito, só depois de passar pelo escândalo da morte de Jesus e terem experimentado a sua Ressurreição é que os discípulos estão preparados verdadeiramente para anunciar Jesus como Messias de Deus, bem diferente do “messias dos judeus” que eles próprios queriam ver em Jesus.

Pela experiência Pascal, o Espírito encontrou neles espaço para realizar o que Jesus tinha prometido: “Ele vos dará a conhecer todas as coisas”… (Jo 16, 12-13) Relêem e Compreendem tudo de maneira nova pela luminosidade pascal!

Quando constroem os evangelhos escritos para anunciar o Evangelho de Jesus Ressuscitado, há claramente esta experiência permanentemente presente. Por exemplo, o relato da Transfiguração, termina com Jesus dizendo aos três íntimos: “Não faleis disto senão depois da Ressurreição do Filho do Homem! E eles perguntavam-se sobre o que seria ressuscitar dos mortos!” (Mc 9, 9-10) Este relato é claramente um sinal desta experiência pascal de Compreensão pela qual se tornam capazes de dizer o que, antes dela, não seriam.




4Mudança

Nenhuma destas dimensões da Experiência Pascal é estanque ou separada das outras. Cada uma delas, ao acontecer, gera as outras! Por isso, quer a experiência do Reconhecimento, como a novidade da Presença do Ressuscitado, bem como a surpresa de uma Compreensão nova de todas as coisas, geram uma Mudança profunda naqueles discípulos.

Não temos outra prova histórica da Ressurreição de Jesus senão a Mudança Pascal dos seus discípulos! Depois de três dias transidos de medo, desilusão e tristeza, saltaram para a praça pública de Jerusalém libertos de tudo isto. Apontavam o dedo às autoridades judaicas que tinham sido responsáveis pela sua morte, argumentavam com inteligência e clareza com os Sábios do Templo e da Lei, recorriam às Escrituras com destreza e segurança, faziam maravilhas entre o Povo e não se deixavam intimidar pelas ameaças e mesmo pelas vergastadas que lhes davam. Pelo contrário, “ficavam cheios de alegria por terem sofrido por causa de Jesus!” (Act 5, 41)

No dia de Pentecostes ainda houve quem insinuasse que “estavam cheios de vinho fino” (Act 2, 13). Mas ainda era muito cedo e, acima de tudo, uma bebedeira não lhes podia dar tanta lucidez, nem sabedoria, nem segurança…

É fundamental compreendermos mesmo isto: o único testemunho histórico da Ressurreição de Jesus é a Mudança Pascal dos seus discípulos! Ainda hoje continua isto a ser verdade. A única “evidência” da Ressurreição do Mestre é o testemunho dos discípulos…

Uma das dimensões da Ressurreição de Jesus é a da Ascensão, isto é, a sua plena e definitiva incorporação na Família de Deus, ou seja, o seu “escondimento” em Deus. É assim que os Actos dos Apóstolos falam da Ascensão de Jesus, como “escondimento” de Jesus no Pai, “despedida” dos seus discípulos e “mandato de missão” (Act 1, 6-11).

Uma mensagem essencial da linguagem simbólica da Ascensão de Jesus é esta: Jesus Ressuscitado já não tem outra visibilidade senão os seus discípulos! Quando chegou a altura de se “despedir”, não deixou fotografias suas, nem relíquias, nem imagens em andores… deixou discípulos ungidos pela força do seu Espírito e com a missão de o continuarem pelo testemunho!

Esta é a importância da Mudança Pascal… Na prática, torna-se ela a visibilidade e a “prova de autenticidade” de todas as outras dimensões da Experiência Pascal e a “palavra” mais eloquente do próprio anúncio da Ressurreição de Jesus como acontecimento salvador.






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